/querido meu nunca/
Querido Meu Nunca, (parte 1)
Querido meu nunca,
Parte de mim quer dizer adeus, mas
parte de mim ainda quer tentar. Presa em palavras jamais proferidas,
perdoe-me por ter me engasgado e sufocado com o som do silêncio que emanou de
nós. Ô menino, vê e diz que vai voltar quando acabar tua volta pelos confins
desse mundo, quando as luzes das cidades se apagarem, quando o som não mais te
encantar e tua mente ensurdecer. Ô menino, volta pra casa. Cansei de ter-te ao
meu lado sem saber se sente meus abraços e afagos, se os beijinhos e os
carinhos trocados ainda são revividos, sem saber se entre paredes e sofás tua
imaginação ainda voa intensa como as mãos percorreram uma vez. Se só mandar
bilhetes não funcionar, fique bem longe, fique bem. Gosto demais de você pra
não fazer parte da minha vida, e sofrer por vento vai dos ares até o nada, e o
coração que dói é derramado em vazio. Cai em forma de poesia.
Contudo, só suma se souber que te
amo de mentirinha.
As luzes da cidade ainda brilham?
Aqui as estrelas que já morreram ainda reluzem, e o tempo que corre ainda anda
devagar demais. Por vezes demais me pergunto como você está, onde anda, se anda
bebendo, se começou a fumar, se ainda se esgueira pelos cantos da noite com
várias ‘elas’, se ainda tem aquele sorriso-malícia naquela expressão com olhos
oblíquos e o rosto que grita: garota, vou quebrar seu coração! Não sou do tipo
nostalgia, mas hoje na rua vi nós dois caminhando há um tempo atrás, quando
tudo começou com um sussurro sapeca e acabou com um adeus mal acabado. No meio
dessa história você era gravidade que flutuava pelas manhãs e pelas tardes; e
às noites, às noites mergulhava em um mar de som e tudo, uma música misteriosa
que cativava e conquistava o seu redor; e eu era uma bailarina dançando e
fazendo piruetas pelo seu labirinto, uma equilibrista segurando travessias por
cima de muros e por baixo de túneis, um sorriso ingênuo brilhante como o sol
que dava ritmo ao teu som. Foge comigo, devolve o meu ritmo, o que pegou
emprestado e faz a tua batida virar música de novo. Vê se ainda tá chovendo,
que se estiver, a gente se molha.
Como resposta tua não quero mudez.
Não quero ser ignorada, menino da cidade. O silêncio já se faz presente todos
os dias e não é o som que quero ouvir, porque aqui dentro tá apertado, minha
cabeça está me comendo inteira e o coração vai batendo num compasso estranho.
Desacredito do teu nada, porque temo que estejas certo. Mas oh, Deus! Sei que
sou enganadora, vivo me enganado por qualquer coisa. Oh, Deus! Sei que sou
mentirosa, vivo mentindo para o espelho por qualquer coisa. Por você. Será que
você lê meus olhos e entende que nas minhas muralhas tem uma porta secreta, que
balança atrás de (nós)(ti)? E como uma bala você aparece de repente me empurrando e
trazendo à tona num segundo o que levei um ano para trancar à oito chaves, só
para depois sumir como um fantasma. Não faz isso de brincar de ser real,
garoto. Não faz que dói. Não faz que eu aturo, pois por você sou uma tola, uma
boba, uma ingênua inexperiente que se deixa levar. Teu tudo me encanta, me
fascina e me assusta. Fico à deriva por não achar esconderijo, (mal)fingindo que você
foi só um qualquer um.
Saiba que se algum dia se sentir
acuado pelo som da vida e pela luz dos carros, ainda tenho teu colar com o meu
nome, e espero ao pé da porta com os braços abertos, o coração na boca, o
relógio vagaroso ali do lado.
Os que têm sentido na cabeça
disseram que era hora de deixá-lo ir, sair de mim. Acho que sim. Estamos sós
agora, não estamos? Só não sabem que eu não tenho sentido na cabeça. Ela foi
ocupada por um som que só aumenta, só aumenta, mais doce que paraíso e mais quente que o Sol, eu jurava ouvia-o também. Afinal,
não é possível voar sem asas e cantar sem voz, então por que deveria deixá-lo
sumir de mim? Deixa teu fantasma ficar, mesmo que acabes se apaixonando pelas
musas cidade. Só te peço que não se conforme com pouco e abandone os sonhos que
sei que tem.
Ô menino, vê se não esquece de mim,
que eu ainda estou aqui, sentadinha no pé da porta, com o relógio estragado e o
coração sem compasso.
Assinado, sinceramente sua.